• Clóvis Nicacio

O dia em que o Diabo foi preso



Às oito horas da manhã o céu estava azul, o sol brilhando aquecendo tudo, pássaros trinando e o Corona vírus se reproduzindo e se espalhando alegremente. Um dia começando lindo e perfeito, mas nem todas as pessoas viam a beleza da natureza.

Os inconformados com a quarentena obrigatória, presos compulsoriamente aos telefones celulares e aparelhos de TV, sonhavam com qualquer chance de sair às ruas, para praticar o esporte favorito interrompido: bisbilhotar a vida alheia ao vivo e em cores.

No decimo sexto dia da quarentena, muitos não se conformavam em ficar reclusos em casa, detidos na tentativa do governo de retrair a propagação do vírus. Os fanáticos das teorias da conspiração até duvidavam da existência do tal vírus, culpando a mídia pelas falsas informações de mortes. Diziam ser mentiras orquestradas para os chineses dominarem o mundo.

— Aqueles amarelos não me enganam. Isso não pega aqui. Uma pinga com limão por dia mata qualquer gripe. Duas doses então, nem se fala.

A coisa começou a mudar por volta das dez horas. A notícia foi dada na TV e nas mídias sociais ao mesmo tempo, ansiosas por ganhar audiência a qualquer custo, numa concorrência canibalesca.

As manchetes, no começo discretas, diziam quase a mesma coisa em todas as redes:

O Diabo foi preso hoje de manhã.

A polícia local foi alertada para uma pequena aglomeração de pessoas, nesta manhã, na Praça do Forró, em São Miguel Paulista. Desobedecendo a ordem de evitar aglomerações, um homem fantasiado de Diabo, com chifres, rabo e pés de bode, foi detido ao distribuir ingressos grátis para um baile funk a ser realizado hoje à noite, na mesma Praça. Não usava máscara para se prevenir contra o vírus, configurando outro crime. O Diabo foi recolhido para uma cela na Delegacia local, distante duas quadras da Praça, para averiguações.”

Não se sabe ao certo quais palavras foram o gatilho. Podia ser “Diabo”, “ingressos grátis” ou “baile funk”, mas o efeito foi devastador. Atiçou a curiosidade dos reclusos, estimulando outra contravenção contra a quarentena. Ganharam coragem para sair de casa e ir para a frente da delegacia apenas para tentar ver o sujeito. Logo se formou outra aglomeração de pessoas, bem maior desta vez, chamando a atenção da imprensa.

As imagens transmitidas pelos repórteres locais se espalharam mais rápido do que o Corona vírus. Quanto mais imagens divulgadas, mais pessoas apareciam, como se saindo dos bueiros das ruas estreitas. Helicópteros começaram a sobrevoar a multidão, atraindo ainda mais atenção. Ao meio dia, as estimativas já falavam em cerca de mil pessoas espalhadas pelas ruas em volta da delegacia.

Como do nada, começaram a surgir os ambulantes, vendendo água, cones de amendoim, cachorro-quente e batatas fritas, no meio dos vendedores de álcool-gel, feito em casa com “álcool puro de alambique” e máscaras faciais recicladas, “lavadas a seco”. A movimentação atraiu diversos food-trucks, se espalhando por toda a volta. Logo o cheiro de hamburguer e outras frituras impregnou toda a região. A fumaça se espalhava, fazendo outra cortina para esconder e propagar o vírus.

Profissionais da saúde foram deslocados para tentar organizar a confusão. Repreendiam quem estivesse sem máscara e sem a garrafinha de álcool. O cheiro de álcool se juntou aos cheiros das frituras, na mesma fumaça. Estimulou o surgimento de barraquinhas especializadas em outro tipo de remédio, com teor quarenta, apelidado de Corote, sem ser o coquetel de frutas.

— Se tem festa, precisa ser da boa. Corote barato para beber e lavar ao mãos. Mata vírus, gripe, frieira, dor de cotovelo e até dor de chifre.

A imprensa não parava de divulgar a explosão demográfica. Os próximos participantes foram os pré-candidatos a vereadores, por ser ano de pleito municipal. Um exército de distribuidores de santinhos engrossou o caldo, espalhando papeizinhos com os nomes dos candidatos. Eram papeis do ano anterior, os únicos disponíveis no momento.

— O povo precisa saber o nome dos que se importam com eles. O número a gente acerta depois.

Duas horas da tarde. Um instituto de pesquisas estimou a multidão em cinco mil pessoas. A Polícia Militar estimou em três mil. A Secretaria da Saúde estimou oitocentos contaminados e não divulgou o número de suspeitos, pois a palavra poderia provocar uma detenção em massa. Os ânimos estavam exaltados. Foi quando chegou o helicóptero de Brasília.

A aeronave sobrevoou a multidão procurando um local para pousar. Achou um campo de futebol num clube, há poucos quilômetros. Dela desceram cinco advogados contratados por um partido político tentando projeção. Os cinco invadiram a delegacia, cada um exibindo um calhamaço de papeis:

— Temos cinco Habeas Corpus exigindo a libertação do pobre homem. Não aceitamos esta arbitrariedade fascista. Vocês não têm o direito de privar este companheiro da liberdade constitucional. O que pensam que são? Não farão dele mais um preso político!

O delegado apenas olhava de um para outro, sem pestanejar.

— Sou a maior autoridade policial aqui dentro e não terminei a averiguação. Entendo de liberdade. Os senhores precisam de uma cela, até se acalmarem? Tenho algumas desocupadas, ainda.

— Isto não ficará assim. Vamos apelar para o STF, o Senado, a Câmara dos Deputados e a Casa da Luz Vermelha. Queremos ver o injustiçado.

Para evitar mais constrangimento, o delegado permitiu a entrada da comitiva no cárcere. Um repórter, de plantão na delegacia, viu a oportunidade de obter informações em primeira mão e tentou pegar carona, mas foi barrado por um dos guardas presentes:

— Pode entrar, moço, mas sem câmeras no xilindró! Deixa elas aqui fora!

Meio contrariado e desarmado, o repórter seguiu os advogados até a cela do detido. Todos os seis se comprimiram no pequeno espaço, quase sufocando o detento. Um dos advogados tomou a palavra: — Sr. Diabo, o senhor está sendo bem tratado? Sofreu alguma violência, quero dizer, física? Pode falar, estamos aqui para defendê-lo desses fascistas. Qualquer coisa. Fique com nossos cartões, se não quiser falar agora. Estamos à sua disposição.

Cinco cartões de visita foram jogados no catre onde o Diabo permanecia sentado. Tinha olhos negros pequenos e profundos, num rosto magro, com bigode e cavanhaque lembrando os mágicos de filmes antigos. No lugar de cabelos exibia dois cornos espiralados enormes. Usava um macacão surrado, de operário. A ponta do rabo irrequieto dançava entre os pés de bode. Estava sereno, tranquilo, sem dizer uma palavra, como se apenas aguardasse por alguma coisa.

Depois de quinze minutos sem conseguir nada, nem uma palavra, os advogados se retiraram, levando o repórter a reboque, sem a entrevista exclusiva e sem fotos. Mas o rapaz não perdeu a oportunidade de escrever o artigo, criando imagens mentais floreadas com palavras bonitas. Divulgou que o Diabo estava tristonho e macambúzio, com o rabo entre os cascos fendidos.

Conseguiu o efeito desejado. O artigo viralizou, se propagando numa velocidade que deixaria o Corona vírus lerdo e envergonhado. No meio da multidão, um menino viu o texto no celular e questionou:

— Mãe, o que é “casco fendido”?

— É igual o seu pai, moleque. Não lava o pé e nem corta as unhas, aquele chulézento!

Um homem ouviu a resposta e corrigiu: — Não é “fedido”. Querem dizer que o casco rachou. O Diabo deve ter levado uma surra de lascar.

Mais uma informação viralizada quase instantaneamente. Bastou alguns minutos para que um grupo, estimulado pelos corotes, começasse a atirar pedras contra a delegacia, protestando contra a repressão e a violência policial desenfreada.

Quatro horas da tarde e o sol, assim como a multidão, continuava quente. Até nos locais onde os sanfoneiros animavam a população, tocando Forró no estilo Luiz Gonzaga. Muita gente já usava as máscaras na cabeça, como uma touca contra o calor. Já a cabeça do delegado estava quente por outras razões. Ele foi o primeiro a profetizar:

— Parece que esse dia só vai terminar quando chegar à meia noite!

Depois, mais uma vez, concluiu o óbvio: — São Miguel não tem estrutura para comportar dez mil pessoas apinhadas. Vamos transferir o meliante.

O pedido para a Secretaria da Segurança Pública foi atendido com o devido tratamento de calamidade. Em meia hora, havia vinte motocicletas da ROCAM e duas viaturas blindadas, da ROTA, cercando e protegendo a delegacia. Os manifestantes se retraíram.

Uma operação de guerra foi montada para a transferência do prisioneiro, sob o protesto dos advogados. O Diabo seria levado para o quartel da ROTA, na Avenida Tiradentes, bairro da Luz. O delegado e os policiais militares decidiram usar as duas viaturas blindadas escoltadas pela ROCAM, desde a delegacia, seguindo para o acesso da Rodovia Ayrton Senna e depois pela autoestrada e Marginal Tietê, até a Avenida Tiradentes. Depois bastava atravessar a rua para entrar no quartel. O trecho mais complicado seria entre a delegacia e a Ayrton Senna, passando por algumas ruas apinhadas de gente ao lado do Mercado Municipal. O resto do caminho estava deserto, em época de quarentena.

Considerando os riscos, os militares logo decidiram por uma estratégia diferente, separando as viaturas. Uma delas seguiria no sentido oposto atraindo a atenção da multidão enquanto a outra faria a transferência efetiva.

A primeira simulou receber o prisioneiro e partiu vazia, exatamente às dezoito horas, saindo da delegacia em direção da Avenida São Miguel. Atravessou a Praça do Forró bem no meio da multidão escoltada por dez motos da ROCAM abrindo caminho, todas as onze unidades com o giroflex e sirenas ligadas. Faziam um barulho ensurdecedor. O delegado deixou vazar a informação de que o prisioneiro estava sendo transferido para delegacia de A. E. Carvalho, na Avenida Águia de Haia, uma construção bem mais moderna.

Todos os curiosos ainda sóbrios partiram em perseguição da viatura, ou na frente dela, transformando a Avenida São Miguel no caos tradicional de antes da quarentena. O engarrafamento monstro se formou, para delícia dos inconformados com a prisão domiciliar. Até os helicópteros seguiam o cortejo. O percurso previsto em vinte minutos seria completado em uma hora e meia.

Enquanto isso, a segunda viatura com o prisioneiro deixou a delegacia sem fazer alarde, seguindo tranquilamente para a Ayrton Senna, acompanhada pelas outras dez unidades da ROCAM. Se não fossem as motos teria passado despercebida.

Um helicóptero da TV percebeu a segunda comitiva e deu o alarme ao vivo, em rede nacional. Deduziram o plano e o destino. Ao ouvir a notícia, outro grupo de curiosos, não tão sóbrios, partiu em direção da autoestrada, iniciando a perseguição. No centro da cidade e na Zona Norte, os que estavam assistindo ao noticiário resolveram conferir por conta própria e uma nova multidão começou a se formar em volta da Avenida Tiradentes.

Por volta das vinte horas São Paulo havia voltado ao normal, com enormes engarrafamentos no Centro, Zona Norte e Zona Leste, milhares de pessoas zanzando pelas ruas sem ter o que fazer e muitos desocupados tentando aliviar a tensão dos últimos dias. Bares e lanchonetes reabriram, aproveitando a oportunidade e a existência de clientes.

A segunda viatura e as motos precisaram passar por cima do canteiro central, se desviando das barracas sendo armadas nas calçadas, para conseguir entrar no quartel e guardar o passageiro. Um rapaz atlético quase foi atropelado, mas levou na esportiva: — Se tem um preso político aqui, merece nossa solidariedade. Vamos acampar até amanhã cedo. Ficar em casa está muito chato.

Eram vinte e duas horas quando começaram a ser transmitidas as notícias das primeiras mortes. De todos os tipos e pelas mais variadas razões. Acidentes trágicos na autoestrada e nos engarrafamentos, linchamento de pessoas que espirraram, enforcamento de pessoas com máscaras mal amarradas, disputa de espaço entre fãs de forró e de funk terminando em conflitos sangrentos, ingestão de álcool-gel, brigas generalizadas entre bêbados... A noite estava apenas começando. Isso sem falar nos recém contaminados pelo Corona vírus, como resultado de apenas um dia sem respeitar a quarentena.

Nos fundos do quartel da ROTA, dentro de uma cela pequena, um homem solitário continuava sério e taciturno, com o rosto semiescondido pela sombra dos chifres. Sereno. Alisava o cavanhaque, enquanto a ponta do rabo dançava entre os cascos fendidos.

Exatamente à meia noite, a expressão dele começou a mudar, ameaçando um leve sorriso. A gargalhada infernal vitoriosa pode ser ouvida até no Rio de Janeiro, distante mais de mil e quinhentos quilômetros.

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