Por trás do Cometa - Parte 4 - A expulsão
- Clóvis Nicacio

- 25 de jan.
- 16 min de leitura
A hora da pausa - Edição de 25 de Janeiro de 2026
Expulsão
*

Túmulo falso
A última semana estava deixando toda a frota irritada. Depois de saírem das proximidades de Marte, se estabeleceu uma rotina preguiçosa, apenas seguindo o ALVO3I na direção de Saturno.
A Coronel não podia deixar os ânimos esfriarem.
— MM, diga ao Capitão 2, da Comando Estratégico & Comunicações, para restabelecer comunicação com nossas sondas de vigilância da Terra, mas apenas em modo passivo.
— Isso pode gerar ruído nos satélites terráqueos, Coronel.
— Ele não deve transmitir nada. Os satélites, se pegarem alguma retro-frequência, vão chamar de "ruído branco", como sempre fazem. Eles não conhecem nossas frequências subsônicas, muito menos quando estamos no hiperespaço.
— Procurando alguma coisa, Coronel?
— Atualizações. Quero saber o que os terráqueos sabem. Se desconfiam da nossa presença, ou se criaram alguma teoria nova que possa nos ser útil.
— Honestamente, eu não levo a sério nenhuma teoria deles. Ainda vivem na Idade do Fogo, explodindo e queimando tudo para obter energia. Estão a milênios de abandonar a palavra "combustível".
— Eu nem consigo imaginar isso, MM. Imagine se nossa frota precisasse queimar alguma coisa para se mover!
Nem um terráqueo conseguiria imaginar como a frota se movia, sem depender de tanques de combustível colossais. Toda a energia necessária era extraída diretamente dos campos energéticos do espaço, não apenas para locomoção, mas para a maioria dos equipamentos, incluindo o armamento. As exceções eram os equipamentos portáteis movidos a baterias de cristais.
— Por quanto tempo vamos manter ativos os raios tratores nos Cruzadores?
— Até alguém ceder. Não seremos nós, temos energia praticamente infinita extraída da radiação e ventos solares. Mas as bobinas dos raios podem apresentar fadiga. Mantenha a 12 de prontidão, para revezar com a 10 ou 11, caso alguma delas precise.
Algumas horas depois, chegou o relatório das Comunicações contendo um resumo das observações capturadas de transmissões terráqueas.
Helen mal terminou de ler o relatório e já ordenou ao MM:
— Convoque uma reunião do alto Comando da frota.
Foram apenas alguns minutos até os hologramas dos Capitães 2, 3 e da Capitã Claudia 8 se projetarem na Ponte de Comando.
A Coronel abriu a reunião.
— Acabei de ler o relatório sobre o que a Terra sabe.
Claudia também havia lido e temia ter deixado passar algo, o que seria totalmente inesperado partindo dela, especialista em Planejamento Tático. Estava ansiosa.
— O que a preocupa, Coronel? Viu alguma coisa interessante?
— Não, são as negativas e despistamentos já esperados. O problema é o que eu não vi.
Os Capitães fixaram os olhares nela, igualmente ansiosos.
— As notícias publicadas não fazem nenhuma referência ao Cinturão de Asteroides. Isso sempre precisa ser levado em consideração quando se vai de Marte para Júpiter, pelo espaço normal.
O Capitão 2 relaxou, explicando.
— O ALVO3I está seguindo uma trajetória hiperbólica de fora para dentro, direta, muito bem planejada para evitar obstáculos. Não vai nem se aproximar dos asteroides.
Helen assentiu.
— Exatamente. Esse é o ponto. Como o ALVO3I se mantem na rota, com tanta precisão? Apontado diretamente para a Esfera de Hill, de Júpiter.
Desta vez foi o Capitão 3, do Comando Tático de Batalha, quem respondeu:
— Usando monitoramento eletrônico, como nós mesmos fazemos no hiperespaço. Júpiter funciona como um sistema de ancoragem gravitacional. Esfera de Hill é o nome do ponto onde a gravidade de Júpiter fica mais densa, podendo interferir na rota, mas a velocidade do ALVO3I é tão alta que impede uma captura pelo planeta. O cometa pode usar isto como um empurrão a mais, para sair em definitivo deste Sistema Solar.
— Isso não faz sentido. A velocidade dele tem se mantido alta, com poucas variações. Por que ele iria direto para onde pode ser capturado? E a sonda da Armagedom mostrou que o interior do cometa é um enorme depósito de produtos químicos congelados. A sonda mal conseguiu se mover de tão abarrotado. Já pensaram qual pode ser o plano B do ALVO3I?
Claudia não se conteve.
— O que quer dizer, Coronel?
— Ele já deve ter assimilado a perda das cápsulas, portando já pode ter acionado outra estratégia. O que seria mais catastrófico neste momento?
Ninguém respondeu, já antecipando uma bomba.
— Ele pode apenas pisar no freio quando chegar na esfera. Será capturado pela gravidade e provavelmente vai se chocar contra Júpiter. Um sistema de autodestruição no meio daquela quantidade de produtos químicos vai desestabilizar o planeta inteiro e este Sistema Solar pode entrar em colapso. Simples e eficaz.
— Um freio? — O Capitão 3 não assimilava informações na mesma velocidade que a Claudia.
— Aquele motor de empuxo no nariz. Já estava lá antes de acionarmos os raios tratores. Qual seria a finalidade?
Claudia recuperou a respiração antes dos outros.
— E como impedimos isso?
— Tentamos alterar a rota dele, sem resultado. Precisamos que o próprio cometa desvie a rota, mesmo que só alguns graus. Vamos enganar o ALVO3I. Dar um túmulo falso para o suicídio dele.
Helen deixou alguns segundos para a informação ser assimilada. Depois soltou a bomba, como um murro no estômago da audiência.
— Vamos fazer um clone de Júpiter.
*

Plano ousado
— Como é que é? Já viu o tamanho daquela bola gasosa? — O Capitão 2 não conseguiu esconder o espanto.
— Não vamos duplicar o planeta. Vocês mesmos afirmaram que ele deve estar monitorando o destino através de instrumentos. Capitão 2, como funciona nossos campos de invisibilidade?
— Ora, Coronel, usamos defletores gerando frequências próximas do espectro ótico, alinhadas com a imagem original. Combinado com bloqueadores de sinais confunde tanto olhos biológicos quanto sensores tecnológicos.
— Certo. E se invertermos a polaridade dos defletores?
Claudia se manifestou antes do Capitão 2. Tinha os olhos bem abertos, quase arregalados.
— Isso criaria uma imagem duplicada, no lugar de escondê-la.
Helen continuou.
— Agora imaginem. Se colocarmos um par de defletores na frente de Jupiter, um passivo para esconder o planeta, outro ativo para exibir uma cópia, e movermos o ativo, podemos deslocar o planeta inteiro. Só precisamos determinar a quantidade de defletores necessários e o alinhamento entre eles. Concordam?
— Teria de ser um número estupidamente alto para cobrir o maior planeta deste Sistema Solar. — Claudia sempre pensava com frieza.
— Capitão 2, pode calcular quantos precisamos? Não esqueça que serão dois defletores em cada posição. Capitão 3, organize esta operação. Vamos precisar de toda a frota trabalhando juntos, em sincronia.
As horas seguintes incendiaram a frota, no bom sentido.
A Nave 02 calculou que seriam necessários milhares de defletores, usando dados geológicos recebidos da Nave 45, a Análise Planetária.
Suprimentos, a Nave 18, começou imediatamente a produzir componentes, depois de Claudia 8 traduzir a ordem para o perplexo Capitão 18, o mais jovem do staff. A Coronel havia dito:
— Capitão 18, ponha suas impressoras para derreter.
Claudia socorreu o jovem Capitão:
— É sentido figurado. Ela quis dizer para usar as impressoras em capacidade máxima. — Impressoras 3D eram fundamentais para produzir peças e componentes.
A Nave 51, a Oficina de Manutenção e Reparos, preparou os esquemas de montagem dos defletores, atividade exercida pelos subalternos da Capitã Claudia 31, no comando de todas as naves da Infantaria.
Até mesmo a 52, a Nave Hospitalar cedeu vários profissionais, para usar seus dedos precisos na montagem dos componentes mais delicados.
Conforme os defletores ficavam prontos, eram testados pelas equipes especializadas e enviados para as naves Porta Caças. As numeradas 04, 05 e 06. O Capitão da 04, líder hierárquico daquelas naves, foi consultar a Coronel.
— Senhora, estamos prontos para lançar os primeiros defletores. Quais são suas ordens, quanto ao risco de exposição?
Helen ficou grata pela preocupação. Quando a frota agia em conjunto, com um objetivo claro, a eficiência se tornava evidente, e era a mola mestra para a Frota Darkshine ser imbatível. Ela respondeu com a calma habitual.
— As naves Porta Caças devem permanecer no hiperespaço. Apenas os Caças devem emergir para o espaço aberto, mas bem espaçados uns dos outros e só pelo tempo de lançar os defletores nos locais demarcados. Não se preocupe com os telescópios terráqueos. Eles não têm capacidade para ver formigas passeando na superfície de Júpiter.
De início o Capitão 4 não ficou satisfeito com a comparação, pois não estariam na superfície, mas em uma camada da atmosfera onde os defletores se manteriam fixos em órbita geoestacionária. Mas depois que os caças saíram, vistos contra o enorme planeta, ele admitiu que a comparação com formigas era melhor do que comparar com moscas.
A enorme malha de defletores começou a tomar forma nos monitores especializados, como uma teia de aranha sendo tecida nó por nó. Um dia depois do projeto iniciado, já era possível fazer o primeiro teste.
Todas as respirações possíveis estavam paralisadas quando Helen deu a ordem.
— Capitão 2, acionar a malha.
A monitoração continuou calma, como se nada tivesse acontecido. Até que algumas luzes começaram a piscar, mas sem acionar alarmes sonoros.
Helen se mantinha calma.
— O que está acontecendo? Naves de vigilância, alguma alteração no ALVO3I?
As Patrulhas de Fronteira, naves 32, 33 e 34, continuavam vigiando o cometa pela proa. bombordo e estibordo. A 32 respondeu primeiro.
— Não fomos nós, Coronel. O ALVO3I continua voando em céu de brigadeiro.
A expressão significava um voo normal, sem incidentes. Foi quando o Capitão 02 apareceu.
— Não foi o cometa, foi a malha. Seis defletores acusam mal funcionamento. Estou fazendo o diagnóstico. Já abortei o teste.
— Me mantenha informada. Seis em milhares é uma proporção muito baixa, mas não podemos tolerar falhas. Somos a SpaceCop.
O 2 voltou poucos minutos depois.
— Todos os seis tiveram problemas em estabilizadores. Se forem apenas retirados podem comprometer a malha.
— Vão precisar de substituição?
— Não necessariamente. Uma recalibração dos estabilizadores vai resolver, mas deve ser manual. Alguém precisa dar um passeio no espaço. Substituir pode ser mais arriscado, considerando que estão aos pares.
— Vamos resolver. – Foi a resposta ríspida de Helen, em um tom anormal.
O Capitão 2 continuou falando, se arriscando a irritá-la ainda mais.
— Coronel, se permite uma sugestão, porque não usamos a Armagedom? Ela já provou ser furtiva, veloz e eficiente. Alguém da tripulação dela deve estar capacitado a ficar alguns minutos no espaço. Eu passo as instruções.
A resposta foi seca e incisiva.
— Não! Esta operação é nossa, temos Cops treinados e habilitados para isto. Capitão 32, temos três fragatas em operação, portanto as outras sete estão disponíveis. Envie seis delas para este conserto. Os pilotos dos Caças não podem abandonar o cockpit, mas as fragatas têm recursos extras. Capitão 2, recolha todos os Caças e os Porta Caças, devem voltar para a formação enxame original.
Foram mais alguns minutos tensos, enquanto as fragatas 35 a 40 se dirigiam para os defletores problemáticos. A calibração, orientada pelo Capitão 2, foi completada rapidamente, mesmo com os astronautas vestindo armaduras desconfortáveis.
Depois de recolher as fragatas Helen estava pronta para retomar o teste. As respirações foram suspensas novamente, quando ela ordenou.
— Capitão 2, acionar a malha.
O clima tenso começou a se dissipar, enquanto os monitores mostravam: nada diferente.
*

Vá e não volte mais
Helen percebeu a mudança de clima na Ponte, quase como uma frustração. Perguntou com toda a tranquilidade.
— Capitão 2, quanto tempo estimado para o ALVO3I chegar na Esfera de Hill?
A resposta foi seca, para uma pergunta óbvia demais.
— Três dias, cerca de 72 horas terrestres.
— Então Capitão, calcule a velocidade necessária para os defletores ativos deslocarem a imagem projetada no mínimo 50% em relação a imagem real, nestas 72 horas.
Todos os presentes se entreolharam tentando entender a ordem.
Helen explicou, como uma professora atenciosa.
— O que nossos monitores estão mostrando não é Júpiter. O planeta está invisível atrás dos defletores passivos. O que acreditamos estar vendo é uma cópia exata criada pelos defletores ativos. Na prática, podemos deslocar o planeta para qualquer lado.
Alguns hologramas sorriram. Outros tentavam acordar voltando da expressão de paisagem.
Para os sensores do ALVO3I, micro ajustes de rota seriam algo completamente normais, em viagens de longo alcance.
A Coronel passou novas ordens.
— Capitão 3, ordene para os Cruzadores desativarem os raios tratores e voltarem para a formação no hiperespaço. Isto deve desativar a anti-cauda do ALVO3I e restaurar o plano original dele. Vamos deixá-lo caminhar tranquilamente pela prancha em direção ao abismo.
A resposta do Capitão 2 voltou.
— Cálculos completos. Acrescentei uma folga estratégica. Nosso clone vai se deslocar 55% em relação ao planeta. Podemos iniciar, os defletores estão sincronizados e os micromotores de empuxo carregados.
Helen sorriu.
— Perfeito. Acionar o movimento da grade.
Acrescentou mais uma ordem.
— Capitão 32, intensificar a vigilância. O ALVO3I pode ajustar a própria rota aumentando a ejeção de gases na lateral da proa ou da popa. Quero saber quando isso acontecer. Isso será muito discreto, dentro das próximas 72 horas terráqueas.
A confirmação chegou 12 horas depois. Naquele período a imagem de Júpiter para os sensores se deslocou 8% em relação ao planeta real. A Nave 32 havia captado um aumento na emissão dos jatos laterais da proa em exatos 8%.
Helen comemorou:
— Ele está seguindo nosso clone. Jamais alcançará a esfera.
A espera sem fazer nada, apenas lendo números nos monitores era dolorida e tediosa. Helen não era diferente dos demais, também sentia a pressão crescente. A dúvida não saía da cabeça dela: e se isso não funcionar? Não haveria folga para mais nada.
Sabia que toda a responsabilidade estava concentrada nas costas dela. E voltava a sentir a solidão do comando.
No que seria a manhã do terceiro dia, se pegou falando para o espelho:
— Nós vamos conseguir, eu e você.
Desta vez teve certeza. Foi ela mesma quem falou, não um eco imaginário.
Ainda estava no alojamento quando MM foi chamá-la, pessoalmente. Ele estava com a mesma expressão de ansiedade que devia estar povoando os rostos de toda a tripulação.
— Duas horas terrestres para a Esfera de Hill.
Era a mesma expressão dos hologramas presentes na Ponte, incluindo a Claudia 8. presente fisicamente, ao lado do MM. Helen era a única exibindo uma expressão tranquila, embora se sentisse da mesma forma que os outros.
Ela deu mais algumas ordens antes do momento T, quando a contagem regressiva terminaria.
Um cronometro contando minutos faltantes era exibido onde antes estava o calendário terráqueo.
— Capitão 32, não sabemos o que vai acontecer daqui á pouco. Retire suas naves. Podem recolher os periscópios, imergir por completo e mantenham apenas a vigilância por instrumentos. Todas as naves, mantenham distâncias seguras do ALVO3I. Essa coisa pode querer nos surpreender e explodir a qualquer momento. Não a subestimem.
A imagem do cronometro foi propagada para a totalidade da frota. A contagem caminhava para zero com a celeridade típica de alguma coisa inesperada chegando.
Helen só observava.
E o zero chegou.
— Capitão 2, desative todos os defletores.
No primeiro momento após a ordem os monitores permaneceram estáticos. Mas logo alguns enlouqueceram, disparando luzes de diversas cores, seguidos de sirenes estridentes.
A voz espantada do Capitão 32 ribombou nos alto-falantes.
— O ALVO3I está tendo uma síncope nervosa. Perdeu completamente o rumo.
Claudia observou.
— Mas vai se recuperar em poucos minutos, quando entender que Júpiter não está mais onde estava. Com consequências imprevisíveis.
Helen não se abalou.
— Ele está vulnerável. — E completou, na voz calma e normal, sem mostrar emoção.
— Armagedom, fogo um.
Foi como se um relâmpago caísse no meio da frota devidamente acompanhado pelo trovão. O espaço tremeu por uma fração de segundo, com a onda de choque chacoalhando todas as naves. Foi como se o espaço tivesse se rasgado. E a sensação desapareceu como se nada tivesse acontecido. Confirmando que relâmpagos e trovões são manifestações atmosféricas, não existem no espaço.
Helen nem esperou a audiência recuperar o fôlego. Ordenou, nem um minuto depois da primeira ordem.
— Armagedom, fogo dois.
Ainda mais espantado, o 32 gritou.
— Alerta de míssil!
Os monitores entraram em outro frenesi, enquanto escudos de proteção eram automaticamente ativados em todas as naves, independente de estarem inatingíveis no hiperespaço.
Helen agora sorria abertamente.
— Todas as naves, retirar alerta. Capitão 32, confirme a explosão no planeta.
Demorou outro minuto para a voz espantada, incrédula e aterrorizada voltar ao sistema de som.
— Explosão na superfície confirmada. Foi um míssil fotônico, um dos nossos. Por que atacamos Júpiter?
— E o cometa?
— Nenhum sinal. Desapareceu por completo dos sistemas. Mas os monitores mostram uma enorme nuvem de poeira estelar, detritos típicos de uma desintegração. Coronel. o que estamos vendo, exatamente?
A desintegração do núcleo, saturado por muitas toneladas de produtos químicos congelados, gerou uma nuvem descomunal de resíduos e poeira — maior do que todo o coma e a cauda do ALVO3I juntos.
Mas o próprio espaço tratou de diluir aquela nova anomalia, dispersando-a silenciosa e rapidamente, talvez antes mesmo que os sensores terráqueos tivessem tempo de reconhecer algo realmente novo. Para eles o cometa devia permanecer na Esfera de Hill. Seria a explicação óbvia.
Helen, sem nem desfazer o penteado, reassumiu o papel de professora.
— Isso tudo é o resultado de um canhão de desintegração massiva, instalado na Armagedom. Esta nave era chamada de Desintegradora de Planetas enquanto estava sendo construída. Claudia, qual o resultado da sua análise destes eventos, do ponto de vista tático?
Claudia se posicionou ao lado da Coronel, pigarreou e começou a falar.
— O ALVO3I sempre foi uma ameaça não só para a Terra e este Sistema Solar, mas para todo o Universo. Confundir o sistema de navegação dele foi uma estratégia brilhante, falando de Tática. Quando os defletores foram desativados e Júpiter mudou de lugar, os sistemas dele entraram em colapso, desativando qualquer defesa que pudesse ter, temporariamente. Foi o momento ideal para bombardeá-lo, mas os produtos químicos no interior dele teriam contaminado tudo em volta. A possibilidade de desintegrá-lo sumariamente foi acertada. O segundo tiro foi para enganar os terráqueos. Não fez nenhum estrago no planeta, mas será interpretado como a queda do cometa. Deixei passar alguma coisa, Helen?
— Não, querida. Você foi perfeita. O que pode dizer sobre a Armagedom?
— Fiquei intrigada no início, como todos. Mas fui juntando peças. A furtividade, o silêncio, a velocidade, a precisão. Mas só entendi mesmo quando você deixou as cápsulas com ela. Estávamos lidando com ameaças biológicas desenvolvidas contra humanos. Seria lógico pensar que presenças humanas seriam um gatilho para abrir as cápsulas. Para nos proteger você as colocou na única nave sem tripulação. Hipótese confirmada pela sua recusa em deixá-la fazer reparos manuais. Deduzo que a Armagedom seja uma nave-robô, pilotada por algum tipo de IA. Estou certa?
— Certíssima, como seria o esperado de você. É a IA mais moderna atualmente, entre todas as criadas pelos Keriuns, programada para obedecer exclusivamente a mim. Eles ficaram receosos de me confiar a arma mais letal da frota neste momento, mas o Capitão Hardthorn os convenceu.
— Onde vamos integrá-la? Entre os batalhões de ataque, de defesa ou nos estratégicos? – Era a vez de Claudia sorrir, antecipando as possibilidades táticas.
— Em lugar nenhum. Não vou aprová-la. Não vi ela desintegrar nenhum planeta, vocês viram?
As expressões voltaram para a incredulidade.
Helen encerrou a conversa.
— Recolham nossos defletores. Esta missão está finalizada. Vamos para casa.
E acrescentou.
— Enquanto voltamos, proponho uma nova aposta: quais são minhas chances de continuar divorciada? Dispensados.
*

Epílogo
Desta vez Sam já estava na sala há mais de 10 minutos quando Helen chegou, como sempre imponente, impecável, decidida, e tantos outros adjetivos que o lado Shine permitia. Era difícil imaginar um lado Dark naquela mulher.
Sam a conhecia muito bem para aceitar os dois lados. Nem precisavam de cumprimentos. Ele foi direto ao assunto.
— Lí seu relatório várias vezes. Está muito bom. Parabéns.
— Eu te conheço, Sam. Qual é o "mas"? Deixei alguma coisa mal contada?
— O relatório está perfeito. O "mas" sou eu. Quase tive um infarto sem saber notícias suas. As publicadas na Terra eram minha única fonte de informações e eles nunca dizem nada sobre nada. Anomalias normais, facilmente explicadas, sem razão aparente. Sei que era você quem as estava provocando.
— Combinamos isto antes de eu sair para a missão. Silêncio absoluto.
— E cumpriu a promessa. Eu é quem não estava preparado.
— Agora está?
Sam achou melhor mudar de assunto.
— Falei com o Major Mark ontem. Ele me ligou sobre inscrever a Capitã Claudia, responsável pela Nave 8, em todos os treinamentos de comando disponíveis. Disse que foi orientação sua.
— Sim, está correto. Acredito na capacidade dela, nunca me decepcionou.
— Está pensando em se aposentar, Helen? Preparando sua sucessora?
— Claudia merece isso e tem potencial. Mas não penso em aposentadoria, apenas em alguma coisa com menos tensão diária. Ainda não me decidi.
— Posso te ajudar nisso. Um dos membros do Conselho de Defesa pretende se aposentar. Indiquei seu nome para a vaga, foi bem aceito. Se te escolherem você receberá um convite formal em alguns meses. Garanto que desta vez estarei na cerimônia, mesmo que precise explodir o universo.
— Fez isso sem me consultar?
Sam desconversou, guiando a conversa para outro lugar.
— Tive um insight durante a conversa com o Major. Mark foi designado como seu Ordenança desde a promoção, certo? Era o encarregado de retransmitir as suas ordens, sem te expor. Aquela missão em que sobrevivi por sorte, a que devia ser sua, você conhecia os detalhes melhor que ninguém. Sempre desconfiei de uma sombra brilhante por trás da cortina. Não fui salvo pela sorte, foi por você.
— Passado é passado. Não vamos reviver isso.
— Eu devia ter reconhecido isso há muito tempo. Agora te conheço bem melhor, Helen. Sei o quanto você está desgastada com essas missões intermináveis, uma depois da outra. Como Conselheira será muito mais simples. Quer saber qual será sua primeira missão quando isso se concretizar?
— Já tem uma?
— Sim, uma diplomática, não militar. Soubemos de uma outra colônia humana, na Constelação de Leão. Avançados, mas nem tanto como nós. Não dominam viagens interestelares ainda. Mas nós vamos até eles. Vamos enviar nossa mais jovem conselheira, acompanhada por uma escolta. Eu comandarei a escolta.
— Quer que meu rosto seja conhecido em mais uma constelação?
— Essa será a parte mais fácil. Eu estarei do seu lado, segurando sua mão, em qualquer situação. O tempo todo.
Foi a vez de Helen forçar uma mudança de assunto.
— Não me faça esquecer o motivo da minha vinda. O relatório não está perfeito. Eu omiti uma informação.
Sam ficou chocado. Aquilo não era o comportamento normal dela. O lado dark poderia estar aparecendo?
— Do que se trata?
— Quando a sonda da Armagedom estava dentro do cometa ela encontrou uma coisa que não deveria estar lá. Uma frequência de comunicação entre a proa e a popa, criptografada. Nós nunca teríamos percebido, mas ela identificou.
Sam ficou sério.
— O que é?
— A mesma frequência e código usados pelos AIKs para se comunicarem entre si.
Sam ficou lívido. Desabou sentado na cadeira.
— Aquilo era um AIK?
— Não. AIKs são robozinhos mirins, como crianças, com perninhas e bracinhos. Quem colocou inteligência AIK em veículos interestelares fomos nós. Entende o que significa?
— Fez bem em manter isso fora do relatório. Temos espiões em casa.
— Exato. Tanto a Armagedom como aquele míssil camuflado foram construídos com base no Projeto Karac. Nosso projeto Top Secret. Por isso a frequência foi familiar para ela. Esta é sua próxima missão: neutralizar espiões.
— Não será fácil. Nossos sistemas de segurança são bastante rígidos.
— Pensei nisso. Esses projetos ficam em cofres superprotegidos em Kerium. Não desconfio deles, são muito leais e dedicados, até mesmo simplórios. Justamente, por serem simples, podem ser o elo mais fraco da nossa segurança. Sem malícia, podem estar revelando segredos para qualquer um.
— Vou cuidar disso. Vi que você reprovou a Armagedom. Teme que ela vá para o lado negro da força, por ser uma derivada dos AIKs? Você até a devolveu para Kerium.
— Não foi o que eu quis dizer. Não a devolvi para ser desmontada, muito pelo contrário. Não a aprovei porque preciso de mais tempo. Ela vai comigo na próxima missão.
— E o que ela faz em Kerium?
— Está recebendo upgrades. Amplificadores para a telemetria de longo alcance, alguns poucos alojamentos humanos e uma Ponte de Comando.
— Guarda-costas costumam seguir na retaguarda.
— Mas cães farejadores vão na frente. Minha próxima missão já foi definida. Sagitário. A rota do cometa indica que veio daquela direção. A análise da crosta do míssil vai indicar onde procurar quando chegar lá. A telemetria ampliada vai procurar a frequência escondida. Quando encontrar quem está por trás do cometa, vamos ter uma conversinha muito séria.
— Quando você voltar estarei com tudo isso resolvido. Aí definimos os detalhes da missão diplomática. A propósito, soube que propôs uma aposta.
— Como sabe disso?
— Como Comandante Geral preciso saber de tudo o que acontece na SpaceCop.
— A aposta vai bem, está longe do fim. A maioria acredita que vou encerrar meu celibato. Os responsáveis melhor cotados para fazer isto acontecer são a Claudia 8 e o Major Mark. Mas tem um azarão ganhando terreno. Soube que a Claudia apostou todas as fichas dela em outro nome. A capacidade intelectual dela é inacreditável.
— Posso saber qual nome?
— Pode. O seu.
— Vou torcer para que ela ganhe. E quando acontecer, ela terá meu respeito e minha admiração pela eternidade.
— Sobre a missão diplomática, tente encaixar uma folga para outra lua-de-mel. Talvez eu vá precisar disso.
— Perfeitamente. Não cometerei mais erros sobre este assunto. Já cometi muitos.
— Para terminar, vou mudar o nome da Armagedom.
— Qual será o novo nome?
— Charlize. Vai fazer eu me sentir muito mais segura, menos sozinha.





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