Por trás do Cometa - Parte 3 - A reação
- Clóvis Nicacio

- há 23 horas
- 10 min de leitura
A hora da pausa - Edição de 18 de Janeiro de 2026
"Sam realmente tem muito bom gosto!" — O espelho
*

Lado oculto
Comandar uma nave de guerra já exige demais. Comandar sessenta exige tudo — e ainda cobra juros. O problema é que a conta nunca chega para a frota inteira. Só chega para uma pessoa.
Helen já nem pensava mais nisso, enquanto tomava sua dose diária de pílulas alimentares, no que seria considerado "uma manhã típica". Só que ainda estavam no hiperespaço, uma região abaixo do plano espacial sem estrelas, sem planetas, sem luz nenhuma. Nada do considerado normal. A cabine não tinha janelas, pois qualquer vigia só mostraria o nada do lado de fora.
Em naves militares humanas, onde é preciso estar atento e acordado o tempo todo, já que ninguém sabe quando os alarmes de perigo vão disparar, o conceito de noite e dia é simulado nos compartimentos dormitórios, usados pela tripulação. Enquanto nos dormitórios de bombordo era dia, nos de estibordo era noite, e vice-versa. Por ser a Comandante, da nave 01 e da frota, Helen tinha um alojamento individual, mas ainda precisava seguir os protocolos de alternância entre vigília e sono, uma necessidade básica dos humanos.
A manhã era apenas o estágio final do período noturno simulado. E ela havia consumido metade do tempo reservado para dormir, ouvindo as gravações feitas pela Armagedom. Houve uns poucos momentos divertidos. A grande maioria só continha futilidades, exatamente como aquelas gravações capturadas pela vigilância da Terra.
Fez uma anotação mental.
Iria pedir para o Capitão 2, o responsável por Comando Estratégico & Comunicações, desenvolver uma IA para filtrar comentários estúpidos em gravações de áudio. Não como censura, mas para diminuir a quantidade de lixo. O Capitão 2, assim como ela mesma, mais o Capitão 3 do Comando Tático de Batalha e a Claudia 8, do Planejamento Tático, formavam o quarteto da hierarquia superior, o Comando e Controle da frota por inteiro.
Muitas das idiotices ouvidas envolviam o nome dela. Entendeu por que Mark havia sugerido para ela evitar expor a própria vida pessoal. Uma reprimenda geral teria esse efeito, embora a revelação do monitoramento pela 61 já tivesse abalado os inconsequentes. Mark sempre a protegia, desde dez anos antes, quando foi nomeado como o primeiro ordenança dela.
Veio junto da patente de Coronel, e desde o primeiro momento, ele assumiu a função de Sombra dela, repetindo todas as ordens e se assegurando de que eram obedecidas. Manteve o comportamento quando ela o nomeou como o Imediato da frota.
Mas Mark não entendia o principal: ele cuidava dela e ela cuidava de todos os que estavam sob sua responsabilidade.
Aquelas conversas sem propósito, mesmo sendo sobre ela, mantinham os soldados acordados.
Um mal necessário ao qual ela podia sobreviver.
A pior parte mesmo era a solidão do Comando. Não podia se relacionar com ninguém, sem parecer uma abordagem dissimulada, com segundas intenções. Ninguém via uma mulher Coronel como uma pessoa. As estrelas da patente sempre ofuscavam.
Um pouco diferente da época em que esteve casada. Sam não a via de jeito nenhum, só tinha olhos para a imagem da sósia. A separação foi dolorida e ainda doía, mesmo tendo sido consensual. Cada um seguiu o próprio caminho, se dedicando à Spacecop, ela como a Coronel da própria frota formada por 60 naves, ele como o Capitão da Corporação inteira, composta por milhares de naves.
Terminou de ingerir o coquetel de pílulas. O dia simulado estava apenas no início. Usou o espelho de corpo inteiro existente no alojamento para conferir os últimos retoques no cabelo e no uniforme. A imagem refletida a fez pensar novamente no Sam. Falou em voz alta para si mesma:
— Que droga! Sam realmente tem muito bom gosto!
Só não entendeu se ela havia falado com o espelho ou se o espelho falou com ela.
Dentro de poucas horas estariam na órbita de Marte. Saiu do alojamento e se dirigiu para a Ponte de Comando.
*

Marte
A primeira coisa que ela viu ao chegar na Ponte de Comando não fez sentido no primeiro momento. Alguém havia escaneado um calendário terrestre, exibido em um dos monitores. Mostrava o mês de Outubro de 2025, onde o dia 05 se destacava em uma cor diferente.
— O que é isto, MM?
— Só um lembrete de que a Terra está olhando para cá, com algum tipo de contagem regressiva ligada. Lá, hoje é o dia 5.
— Então serve de alerta para nós: estamos lutando contra o tempo, não apenas contra um inimigo comum. Deixe aí. Alguma mudança no padrão?
— Nada ainda. Os cálculos indicam que estamos no ponto mais próximo da órbita de Marte.
Como se estivessem só aguardando a deixa, diversos equipamentos começaram a piscar e apitar. Todos os presentes nas equipes de prontidão imediatamente correram para seus postos de combate. O MM mantinha a calma sem mostrar alteração, treinado para respostas rápidas.
— Foi a 32, a Patrulha de Fronteira de bombordo. Os periscópios captaram atividade no núcleo do cometa daquele lado.
— Ordene para a 42 emergir, mantendo a camuflagem ligada, mas sem interferir no coma. Quero imagens do que está acontecendo.
A 42 era uma das corvetas de Interceptação Rápida.
Em menos de um minuto, uma imagem se formou na tela principal. Mostrava uma abertura nova no núcleo, onde as nuvens de vapor e poeira estavam menores, mas algum outro gás era expelido em grande quantidade.
Saindo do meio do gás, um pequeno conjunto de objetos rochosos foi ejetado em sequência, penetrando na cauda do cometa em altíssima velocidade.
Outro alarme disparou. MM gritou:
— Alerta biológico. Veio da 42.
Todos sabiam ler nas entrelinhas: “Alerta biológico” era a descrição técnica para uma coisa só: contaminação.
Helen disparou contra o intercomunicador.
— Capitão17, siga aqueles objetos, sem emergir. Quero a velocidade e rota deles. Outros Cruzadores, Alerta Amarelo para perseguição caso os objetos se separem.
A 17 era um Cruzador de Cerco, capaz de criar uma parede intransponível para qualquer coisa que não quisesse explodir ou ser explodida. Na espinha dorsal ofensiva da frota, ainda havia 3 Cruzadores Pesados, 2 Cruzadores de Bombardeio e 2 Cruzadores de Assalto, além de um de Reserva Estratégica, todos com o dedo no gatilho. Se o ALVO3I queria guerra, o Esquadrão Darkshine era especialista nisto.
A imagem na tela mostrou a abertura se fechando, restaurando a emissão de vapor e poeira, voltando ao que deveria ser a condição normal do cometa. Na Ponte não havia nada normal, apenas a frieza de Helen e do Imediato, os mais experientes em combate naquele local e momento.
Helen comandou:
— Capitão 42, imergir. Analise o tipo do sinal biológico. Envolva quem precisar, incluindo a 52, a Nave Hospitalar. Capitão 17, tem alguma coisa?
A resposta no sistema de som veio de um homem preocupado.
— Os objetos são cinco cápsulas metálicas revestidas de crosta rochosa, voando em formação. Dirigem-se para Marte. Vão sair da cauda, com entrada na atmosfera estimada em 10 minutos. Também detectamos um objeto menor, mas ainda sem identificação. Pode ser aquela sonda nossa colocada no interior do alvo.
Helen nem pestanejou. Ordenou como se falasse com o Imediato:
— Armagedom, interceptar cápsulas. Capture e congele.
Nenhum dos presentes entendeu exatamente. Esperavam alguma ordem para o 17.
A voz preocupada, agora misturada com espanto, se fez ouvir:
— Não vejo nada, mas as cápsulas estão desaparecendo do sistema e da minha visão, uma por uma, com poucos segundos de diferença. Coronel, com todo o respeito, o que é isto?
— Não precisa se preocupar, Capitão. A Armagedom tem treinamento de resgate em condições críticas. Ela tem raios tratores de curto alcance para capturar soldados no espaço e câmeras criogênicas para acomodá-los. Isto desativando apenas o escudo de força, mantendo a invisibilidade. Quando tem vidas em jogo, o tempo é crucial. Se a nossa sonda estava junto, já foi recuperada. Alguém confirma se a Terra viu alguma coisa deste incidente?
MM foi quem se manifestou.
— Se nem nós mesmos vimos, não acredito que a Terra tenha sequer percebido. Foi rápido demais até para nossa vigilância tecnológica.
— Então voltamos a nossa rotina, observar o ALVO3I. Mas agora sabemos que realmente é hostil, reage e tem planos próprios. Alguma alteração no momento?
— Aqueles gases liberados quando fez o lançamento das cápsulas. Pode alterar alguma coisa no coma. Talvez a Terra perceba isso dentro de alguns dias. Vamos monitorar. — MM conjeturou.
Duas semanas depois, indicadas naquele calendário exibido no monitor, o Sol se alinhou entre a Terra e o ALVO3I, escondendo o cometa dos telescópios terrestres. Era a oportunidade que Helen esperava para um ataque mais agressivo.
— Quero tentar uma nova abordagem. Em uma semana, conforme os cálculos nossos e dos terráqueos, o ALVO3I atingirá o periélio, o ponto mais perto do Sol nesta jornada. Vamos alterar a rota dele, para desviá-lo de encontro ao Sol.
Os presentes naquele briefing se entreolharam, esperando as ordens.
A Coronel, sempre calma, explicou.
— Vamos usar nossos Cruzadores Pesados Classe Martelo, pode ser o 10 e o 11. Devem seguir pelo hiperespaço até 5000 quilômetros à frente do alvo, emergir se mantendo fora do raio de visão dos satélites terráqueos e disparar raios tratores contra o alvo. Vamos forçar uma mudança de rota direto para o Sol. Se dois cruzadores não forem suficientes para o arrasto, enviamos o 12 para ajudar.
Os hologramas balançaram as cabeças em aprovação, sugerindo que aquilo poderia funcionar.
Poucas horas depois as naves gigantescas estavam posicionadas. Todas as respirações na Ponte estavam suspensas quando Helen ordenou ativar os raios.
Em poucos minutos, alarmes começaram a tocar e luzes a piscar.
MM gritou.
— Reação no alvo. Tanto a 32 como a 33 captaram atividade no nariz do núcleo.
— Capitão 42, emergir na frente do alvo, mas não se exponha aos raios tratores. Quero imagens. — Foi a ordem direta da Coronel, sem envolver o MM.
Logo a tela central se acendeu novamente. Uma enorme abertura havia surgido no nariz do cometa, expelindo grandes partículas de gelo e poeira, formando um jato coeso, dirigido para a frente.
— Aquela coisa está tentando desestabilizar nossos raios. Tem motores de empuxo nas duas pontas. Não vejo alteração na velocidade nem na rota. — MM não escondia a decepção.
Helen o apoiou.
— Vamos manter os raios ativos. A reação deve diminuir quando aquilo consumir seus recursos. Agora virou uma queda de braços, um jogo terráqueo.
— Mas, Coronel, não tem como esconder isto da Terra. Eles verão, quando o Sol sair da frente, ou mesmo antes, pelos satélites em Marte.
— Vão inventar alguma coisa, do tipo cauda reversa ou algo assim. E a política do "vejo, escuto, mas não existe" vai prevalecer. São especialistas em negar tudo.
MM era puro desanimo.
— Gostaria que tudo fosse simples assim. Só negar para os problemas não existirem.
— Não perca a esperança, MM. Se aquilo não desiste, eu menos ainda. Ponha a 34 para aumentar a vigilância: bombordo, estibordo e popa. Deixe a 42 na frente, o mais camuflada possível. Essa atividade no nariz vai ajudar a esconder uma corveta. Oriente-a para imergir a qualquer sinal de alteração na descarga frontal. Não queremos ser surpreendidos por mais cápsulas biológicas, mas esta coisa deve ter um Plano B.
— Pelo menos neutralizamos o plano A. Marte não foi contaminado.
— Eu autorizei um link direto entre a Armagedom e a 42. Estão analisando as cápsulas em conjunto, mas no modo remoto, sem intervenção humana. Não abriremos nenhuma delas até temos certeza de ser seguro. Disparar uma contenção biológica neste momento seria desastroso.
A aparente tranquilidade durou poucos dias. O calendário no visor mostrava ser o início de Novembro na Terra, quando as luzes e sirenes na Ponte de comando dispararam novamente. O corpo de hologramas vigilantes saltou para seus postos de batalha, dentro das respectivas naves, atentos aos monitores. A resposta veio da 33, a Patrulha de Fronteira, a fragata vigiando o lado estibordo.
— Atividade no Núcleo. Gases de lançamento detectados em uma nova abertura.
O Capitão 42, vigiando a proa, se prontificou.
— Deslocando para obter imagens.
A tela na Ponte se acendeu mostrando a nova abertura, similar àquela por onde as cápsulas foram lançadas. Mais objetos rochosos saíram voando, semelhantes a meteoritos.
Desta vez a 42 já estava posicionada, de frente para o crime.
— Nenhum sinal biológico, devem ser sondas de investigação. Estão tomando uma rota para Marte, passando por dentro da cauda.
Helen mal teve tempo para decidir.
— Não vamos deixar. Marte não tem mais nada que interesse ao alvo. Capitão 42, intercepte e destrua, tiros de fragmentação.
Era a especialidade da 42, uma corveta de Interceptação Rápida.
MM observou:
— Os resíduos vão alterar a composição do coma e da cauda. A Terra pode identificar como minerais industriais.
— Vamos correr esse risco. O coma já está comprometido por aqueles gases. Se eles viram alguma coisa se soltando, dirão que foram rochas ou gases novos.
A tela mostrou a abertura se fechando, restaurando a atmosfera anterior. Aparentemente o ALVO3I ainda não absorvera a perda das sondas.
Helen ordenou.
— Voltar a formação anterior. Nossa rota daqui para a frente aponta para Júpiter. Considero o capítulo Marte encerrado.
*

A Terra dorme
Enquanto no espaço uma guerra era travada, comandada por uma mulher loira de cabelos curtos, envolvendo Cruzadores, Fragatas, Corvetas e alta tecnologia, a Terra dormia tranquilamente. Talvez acordasse se fosse necessário envolver Destroieres.
Um outro tipo de guerra dissimulada acontecia na Terra, por baixo dos panos, mas sem tirar o sono de ninguém. A Guerra da Desinformação. Qualquer nova descoberta era primeiro negada, depois investigada se fosse conveniente.
As últimas notícias divulgadas foram sobre o desaparecimento do Cometa durante o mês de Outubro, na Conjunção Solar, quando o cometa ficou impossível de observar, devido ao brilho do Sol cegando os telescópios. Coincidiu com o momento da maior aproximação entre o Cometa e o Sol, chamado periélio. Todos os cientistas envolvidos com as notícias comemoraram não ter acontecido nada. Também houve o perigeu, quando o Cometa atingiu a menor distância em relação à Terra. Mas passou muito longe, sem nem fazer cócegas. Não havia nenhuma ameaça para o Planeta Azul, outro motivo de comemoração.
Quando o 3I/ATLAS reapareceu para os telescópios, estava diferente. Mais brilhante, cor esverdeada, apresentando uma anti-cauda. Tudo normal, considerando que havia sofrido uma enorme insolação, enquanto estava escondido. Pelo jeito, Cometas não ficam vermelhos como os humanos quando tomam Sol em excesso. Ficam verdes, e reagem ao calor recebido assoprando na direção de onde vem a luz.
Ninguém explicou de onde vinha a água perdida em forma de vapor, e nem porque a poeira assoprada para longe não emagrecia o Cometa. A explicação fácil: Cometas não são humanos. Ilustradas por palavras elegantes pouco conhecidas, como “sublimação”. O mistério dos acompanhantes do Cometa, foi explicado como inconsistências óticas e esquecido.
Todas as evidências, científicas ou não, indicavam que o 3I/ATLAS era apenas uma rocha inofensiva, passeando pelo nosso Sistema Solar como um simples turista. Apesar das excentricidades típicas de turistas vindos de muito longe, justificadas por não conhecerem as nossas próprias excentricidades.
Tudo normal.
*
Se você chegou até aqui, no próximo domingo a conclusão e o Epílogo: Parte 4 — A expulsão.
Assinantes recebem por e-mail.






Comentários