Por trás do cometa — Parte 2 - O ataque
- Clóvis Nicacio

- há 5 dias
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A hora da pausa – edição de 11/01/2026
Rumo ao desconhecido

Comandar a frota dos combatentes mais temidos e respeitados da Polícia Espacial exigia sacrifícios, dedicação e pulso de ferro. A Coronel Helen Darkshine sabia muito bem como fazer isso, depois de muitas missões com os mais variados níveis de perigo. Algumas destas missões só eram entregues a ela porque nenhuma outra equipe as queria, consideradas suicídio.
Logo depois da partida ela reuniu todos os sessenta Capitães em uma reunião holográfica, para atualizar todos de uma vez com as últimas ordens.
A estrutura de comando adotada por ela era simples: ela comandava pessoalmente a Nau Capitânia, a Nave 01, e cada Capitão ou Capitã das outras naves se reportava a ela, cada um exercendo total autoridade sobre os subordinados dentro da Nave, fossem oficiais ou subalternos.
Ela julgava ser mais fácil identificar e associar todo o primeiro escalão por números, pois seria complicado decorar os nomes de cada oficial e relacionar o nome com as naves em que operavam. Cada uma tinha uma função específica.
Na reunião todos os sessenta participantes acompanhavam o que era discutido na Ponte de Comando através de telas espalhadas pela sala, porém seis Capitães por vez, podiam estar presentes como imagens holográficas, criando a imagem de sete pessoas se alternando na Ponte. A Coronel era a única a estar presente fisicamente.
— Vamos nos atualizar sobre esta missão. Estamos indo para o Sistema Solar Terráqueo investigar um cometa desconhecido. Terráqueos ou qualquer outro observador não devem saber da nossa presença.
Um Capitão holográfico ao lado dela, levantou a mão, questionando antes dela autorizar.
— Qual a necessidade desta armada. Uma única nave pode destruir um cometa.
— Capitão 45, eu já ia explicar isso, se o senhor não interrompesse este Briefing.
O holograma se retraiu.
— Desculpe, Coronel.
— Antes de qualquer ação precisamos estudar o artefato. Os terráqueos não sabem se é apenas um cometa ou um objeto artificial. Cabe a nós descobrirmos se é uma rocha inofensiva, uma sonda ou algum tipo de míssil. Uma nave tripulada teria dado alguma indicação. A trajetória atual indica que se dirige para Marte em velocidade elevada, mas a projeção da trajetória reversa mostra que veio da direção de Sagitário.
Ela deixou a audiência assimilar aquelas informações, depois continuou.
— Em 2019, data terrestre, um outro objeto veio da mesma direção, passou pelas defesas da SpaceCop e explodiu na Terra, como se fosse uma simples estrela cadente. Contaminou todo o planeta com um vírus, culminando na Pandemia Covid. Se este cometa for outra Bomba de DNA, mais mortal, não podemos simplesmente explodi-lo.
Fez outra pausa. O holograma 45 saiu da ponte, deixando lugar para outro Capitão. Claudia 31 apareceu, a responsável pelo Primeiro Batalhão de Infantaria.
— Se realmente for uma ameaça, pode estar sendo monitorado pelos responsáveis pelo envio, além de estar nos holofotes da Terra. Nossa presença não deve ser notada por nenhum deles. Vamos viajar e nos manter o tempo todo no hiperespaço, com todas as comunicações de longo alcance desligadas. Apenas as comunicações de baixa amplitude entre naves está autorizada.
Um burburinho agitou os hologramas. Viajar no hiperespaço era como viajar submerso no mar, no tempo das viagens marítimas terráqueas. Isto eliminava metade da capacidade de combate da frota, os reduzindo a meros submarinos.
No hiperespaço não havia estrelas ou qualquer outro corpo estelar, era escuridão absoluta, embora permitisse a maior velocidade. Deprimente para qualquer humano.
Helen percebeu o desconforto da frota.
— Eu vou controlar pessoalmente quais naves vão emergir para interagir com o cometa, e por quanto tempo estarão no espaço normal. Isto é fundamental para o sucesso desta missão: invisibilidade absoluta. Alguma pergunta?
Um holograma timidamente levantou a mão. Era o responsável por Suprimentos.
— Qual a pergunta, Capitão 18?
— Tem uma nave nova nos acompanhando. É outra integrante da Frota? Não atende aos protocolos padrão e a nenhuma tentativa de contato.
— Não se preocupem. É apenas uma nave protótipo para minha avaliação. Eu ordenei que ficasse em silencio absoluto, dentro do objetivo desta missão. Só posso dizer isso. Dispensados.
Todos conheciam muito bem a última palavra. Significava para voltarem aos seus afazeres, sem mais perguntas.
Helen ficou sozinha na Ponte, até a chegada do Major Mark, codinome MM, o Imediato dela, um dos poucos em quem ela podia confiar sem medo de ser apunhalada pelas costas. Ela o chamava normalmente pela sigla, só usando o primeiro nome do Major em conversas informais quando estavam sozinhos.
— Como está o clima, Mark?
— O de sempre, Coronel. O Clube do Bolinha fazendo planos e o Clube da Luluzinha pretendendo frustrá-los. Porque permite estes antagonismos, Helen?
— É necessário, você sabe disso. São todos combatentes. A qualquer momento podem ser solicitados a entrar em batalhas sangrentas, violentas, arriscando as próprias vidas. Se não tiverem um pouco da ferocidade e defeitos dos humanos terráqueos, serão presas fáceis.
— São bem treinados e membros da SpaceCop. Não devia deixar sua vida pessoal ser motivo de chacota, apenas para satisfazer o ego de uns poucos idiotas. Os homens, nem todos, dizem ser tratados em seu modo “Dark” se ressentindo do modo “Shine” dispensado às mulheres.
— Isso não existe. Nem me importo se alguns Capitães ficam apostando com quem eu vou dormir, e nem se algumas mulheres da equipe ficam me protegendo. O que me interessa é saber se estarão prontos no momento de pegar em armas.
— Mas você trata alguns Capitães sempre pelo número e algumas Capitãs sempre pelo nome. Para eles soa como protecionismo ou parcialidade.
— É apenas reconhecimento entre lealdade e antagonismo. Nada mais. Quem leva para o lado pessoal deveria se esforçar mais.
— Então precisamos de um inimigo logo, antes que nossos próprios oficiais assumam este papel. As fofocas sobre as suas preferências estão aumentando. Sabe a última coisa que ouvi na cantina da 13? "Ela é apenas uma mulher muito atraente, divorciada.".
Helen tinha consciência do perigo daquilo: fofoca era combustível. E combustível, numa frota armada, vira incêndio.
— Quando souber quem disse isso, vou agradecer o elogio. Depois quebro todos os dentes do imbecil.
— As Claudias, a 8 e a 31, também ouviram rumores. Você terá de chegar antes delas.
O Major Mark sabia ser um privilégio ter esse nível de intimidade e franqueza com a Coronel. E sabia muito bem o significado de lealdade, para reconhecer quando ela queria mudar de assunto, mesmo quando parecia calma mantendo o cérebro em ebulição.
Ela encerrou a conversa.
— Estamos a poucas horas do cometa. Vamos traçar o plano de ataque ao nosso suposto próximo inimigo. Isso vai melhorar o astral de todos. Chame a Claudia 8. Não se trata de preferência, é apenas lógica pura.
*
Inimigo oculto

O Esquadrão Darkshine adotou a formação Enxame em volta do cometa, sem sair do hiperespaço e mantendo uma distância considerável. Nenhum telescópio ou sonda, fosse de monitoramento ótico ou de frequências conseguiria captar a existência de 61 corpos celestes se confundindo com estrelas.
A nave 45, do Capitão insolente, foi a única autorizada a emergir, para lançar sondas de prospecção geológicas na superfície do cometa, se mantendo oculta por vapores de água e poeira, a matéria prima formadora da cauda. Mesmo na distância relativamente curta em que se encontravam, as câmeras agindo como periscópios só mostravam uma enorme rocha difusa.
As primeiras imagens estavam sendo analisadas na Ponte de Comando, por uma junta de hologramas. A Coronel indagou para a outra mulher presente fisicamente. Uma morena baixinha, de cabelos negros amarrados atrás da cabeça, quase sufocada pelo uniforme.
— Claudia, qual sua primeira impressão?
A Capitã 8 era a responsável pela Nave 8, a de Operações Táticas, com a função de sugerir a maioria das ações da frota.
— Minhas primeiras impressões confirmam as observações da Terra. Eles identificaram este cometa em 1º de julho de 2025 e o batizaram de 3I/ATLAS, o nome comum ou C/2025 N1 (ATLAS), o nome científico. Estão há um mês na nossa frente. Já sabem do coma, a envoltória do núcleo, formada por Dióxido de carbono (CO₂), Vapor d’água (H₂O), Monóxido de carbono (CO), Compostos sulfurados (OCS) e a poeira rica em grãos finos. Estes compostos são ejetados para longe, criando uma cauda em forma de lágrima por vários quilômetros. Deduziram que a alta razão CO₂/H₂O indica formação em ambiente frio, distinto das regiões típicas onde se formaram a maioria dos cometas deste Sistema Solar. Confirma a origem interestelar deste objeto.
Helen a interrompeu com um gesto:
— Você está repetindo o que os terráqueos já sabem. O que eles não sabem?
— Sugiro usarmos apenas um codinome de missão: ALVO3I. O tamanho do núcleo é maior do que eles estimam. Estão chutando desde centenas de metros até cinco quilômetros. Nós estamos aqui, eles não. Por baixo daquele coma tem espaço para estacionarmos toda a nossa frota, com bastante folga. Se fosse uma rocha gelada tão antiga, o peso não permitiria desenvolver velocidade para escapar do campo gravitacional do Sol. Preciso de análises geológicas do solo antes de emitir uma conclusão.
Helen adorava a forma de pensar da Claudia 8, sempre direta quando estimulada.
— Capitão 45, está conseguindo nos ouvir? Sei que pilotar contra a chuva de água e poeira é horrível, mas já pode lançar suas sondas.
Claudia acrescentou.
— Cuidado ao perfurar. Pode ser uma crosta de rochas camuflando alguma estrutura metálica.
Foi a vez da Coronel.
— Eu faria uma coisa assim se quisesse esconder um míssil e tivesse asteroides suficientes para descascar.
A reunião continuou na Ponte enquanto o 45 lançava as sondas geológicas e as colocava em operação. As imagens holográficas não escondiam a tensão, se revesando ao lado das duas mulheres, pois perfurar rochas antigas congeladas no espaço sideral consome muito tempo. As brocas circulares compostas por lasers potentes coletavam blocos cilíndricos das rochas, atacando o solo, mas isso fazia o chão tremer, provocando algumas rachaduras.
Depois de quase uma hora da operação iniciada, alarmes foram disparados na Nave 45, e propagados para a frota.
Outros alarmes e luzes começaram imediatamente a se exibir na Ponte de Comando. Major Mark, o Imediato, foi o primeiro a reportar.
— Coronel, o cometa está reagindo.
— Explique, MM.
— Uma das sondas atingiu uma estrutura metálica a dois metros de profundidade. Claudia 8 estava certa. A superfície rachou e uma coluna de vapor atirou a sonda para longe.
— 45, recolha todas e volte para o hiperespaço. — A ordem da Coronel foi a mais rápida possível. — Claudia, avalie as consequências disto.
Helen sentiu a tensão de todos crescendo e viu todos se esforçando para obedecer.
Mas não pode evitar uma dúvida:
— Estão obedecendo a mim ou a uma imagem?
A resposta, mostrando eficiência, veio do próprio Capitão 45.
— Nossa sonda não sofrerá danos, é preparada para resistir a desabamentos. Temos material suficiente para começar uma análise. Mas estou captando uma coisa muito estranha: o cometa parece estar começando a girar, como se fosse um animal se livrando de pulgas.
— Isso é uma coisa viva?
— Não parece, mas indica estar equipado com defesas. Imagino que a Terra verá isso e vai interpretar como jets no coma, com espectros de CO₂ dominantes e emissão de água/ OH. Vai deixá-los mais loucos do que já são. E quanto mais simples a explicação, mais segura ela parecerá para eles.
— Vão achar alguma negativa, como sempre fazem. Mas é um aviso para nós: não podemos subestimar este cometa, ou, seja lá o que for. MM, crie uma junta com todas as naves envolvidas com geologia, para colaborarem com a 45.
Nos dias seguintes, a discrepância cresceu.
Enquanto os observatórios terráqueos ajustavam modelos e descartavam leituras como ruído instrumental, os sensores militares captavam algo mais inquietante: jatos colimados, que na prática significavam tiros de energia direcionados, emergindo de altas latitudes do núcleo, não alinhados com o gradiente térmico solar. Não eram erupções caóticas. Tinham padrão. Ritmo. Direção. Falar de jatos colimados nos relatórios evitaria o pânico relacionado a tiros.
O cometa girava lentamente, algo entre quinze e dezesseis horas por rotação, e seus jatos acompanhavam essa dança com precisão incômoda. Pretendiam evitar a aproximação de qualquer outro corpo celeste, agindo como um animal acuado.
— Estrutura interna organizada — concluiu Claudia 8 após confirmar a existência da crosta rochosa. — Não é natural, nada disso é aleatório. Esses jatos de CO2 estão sendo ejetados por aberturas ocultas sob a crosta. Os intervalos de poucos minutos entre os jatos não permitem usarmos outra sonda, seria destruída antes de começar a coleta.
— Talvez não, Claudia. Temos uma solução para este impasse. MM, ordene para a 55 emergir. Quero uma visão clara de uma dessas aberturas, por onde estes gases estão saindo.
A 55 era uma nave de Reconhecimento de Campo de Batalha, equipada com as câmeras mais sofisticadas. Emergiu escondida em um ponto entre o coma e a cauda onde conseguia observar algumas aberturas.
A Coronel acompanhava a operação muito concentrada.
— MM, quero as coordenadas exatas daquele buraco da esquerda, o mais visível.
— Exatas não será possível, Coronel. A poeira e os vapores do coma prejudicam nossa visão. Serão estimadas, com a maior precisão possível.
Ela não se abalou. Disse, com toda a calma do universo:
— Armagedom, lançamento autorizado.
O que aconteceu em seguida foi completamente inesperado.
Uma nave emergiu por trás da 55, efetuou um único disparo e as câmeras de reconhecimento viram uma pequena sonda penetrando na abertura do cometa, bem entre duas rajadas de gás.
Em seguida a nave desapareceu, voltando para o anonimato. Tudo isso em algumas frações de segundo, insuficientes para qualquer registro.
Os hologramas presentes na Ponte de Comando estavam boquiabertos. Claudia 8 foi a primeira a se recuperar.
— O que foi isso, Coronel? Nossos melhores snipers não teriam essa pontaria, sincronização e eficiência nestas condições. Meus sistemas Táticos não têm nada similar.
Helen respondeu, mantendo-se calma.
— É uma das características da Nave 61, um protótipo em teste que devo avaliar. Não posso dizer mais nada. O que importa é que em algumas horas saberemos os segredos escondidos na barriga desta coisa.
O Imediato estava inquieto.
— O que é MM? Tem autorização para falar abertamente.
Ele pigarreou. Começou meio sem jeito.
— Não vi você acionar o comunicador quando deu a ordem. Como a 61 te ouviu? Monitorar a Ponte de Comando é contra o regulamento.
— Bem observado. Sim, monitorar a Ponte é contra o regulamento. Monitorar simultaneamente todas as naves desta frota é uma estratégia de Resposta Rápida, prevista para situações de alto risco. Como Comandante da missão tenho essa prerrogativa. A Armagedom está ouvindo todas as futilidades ditas nas sessenta naves por ordem minha, desde que saímos de Heaven. Sem transmitir nada, só ouvindo. E gravando!
Alguns Capitães ouvindo a conversa engoliram em seco, temendo uma reprimenda ou até mesmo Corte Marcial.
Helen acrescentou.
— O que aconteceu agora é o que espero de todos vocês. Eficiência. A Armagedom me obedece sem hesitar, sem perder tempo questionando minhas ordens, e sem ficar fazendo intrigas inúteis. Dispensados.
*
Como um biombo

Em Heaven, o Capitão Hardthorn se sentia um trapo. A ausência de notícias de Helen o estava enlouquecendo. Sabia que ela manteria silêncio absoluto em todo o Esquadrão, cumprindo as diretivas da missão, mas seu próprio coração não aceitava bem todas as regras.
Era o coração dele que mantinha uma frota com centenas de naves de combate em prontidão, vigiando o Sistema Solar Terráqueo, e o mantinha com o dedo no gatilho para lançá-las contrariando qualquer ordem de sigilo, se fosse necessário.
Precisava se manter informado através das notícias capturadas pelas sondas de vigilância da Terra. Mesmo com o atraso típico daquelas notícias era tudo o que tinha sobre a missão.
Faltavam poucos dias para a geometria fechar: o Sol se colocaria entre a Terra e o cometa. Até mesmo aquela janela ineficiente seria bloqueada.
A última notícia recebida pareceu preocupante no início, mas depois foi amenizada. A cauda do cometa havia mudado de cor. Algumas imagens passaram a mostrar tons esverdeados, e outras pareciam insistir num vermelho de poeira, como se cada telescópio estivesse vendo um cometa diferente
Era óbvio que ocorreu alguma contaminação, provavelmente como consequência da presença de Darkshine. Ela estava cutucando a fera.
A explicação veio dos próprios terráqueos: os efeitos do aquecimento do cometa, pelos raios solares, estavam liberando C₂ (Carbono diatômico) do núcleo, vistos como o efeito esverdeado. O vermelho anterior era apenas poeira. Ao mesmo tempo isso era negado, como alucinação de astrônomos amadores.
Não foi provocado pela explosão de nenhuma nave. A missão continuava em andamento.
Agora chegava o momento mais crítico: o Sol ficaria entre o cometa e a Terra, escondendo tudo o que pudesse acontecer daquele lado, inclusive a chegada em Marte, prevista para o início de Outubro de 2025.
A situação ideal para Helen exibir tudo o que era capaz. Possibilidades assustadoras. De quem seria o rugido mais alto?
Ele ficava arrepiado só de pensar no que ela faria protegida por um biombo, possuindo a Arma do Armagedom.
*
Se você chegou até aqui, no próximo domingo, 18 de Janeiro de 2025: Por trás do cometa, Parte 3 — A reação.
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